“Um dia hei-de ir a Santiago a pé”, falei eu tantas vezes a mim mesmo, como quando nos dizemos coisas em pensamento. E hei-de ir, sim senhor, que nunca é tarde.

O motivo que me faz caminhar para esta empreitada não é religioso, mas também é, não é aventureiro, mas também é, não é uma promessa, mas também é. É sobretudo uma forma de transcendência, uma vontade de marcar uma linha bem definida que separa o que eu sou como homem e o que não estou a conseguir ser como sonho, desejo, vontade. Ir a Santiago a pé terá de ser um gesto vivo de experiência, de superação e reflexão. Terá de ser travessia num deserto onde se prestam contas com o pensamento e se desligam os elos que nos fundem a existência. Terá de ser perceber um pouco mais o meu mundo intrincado na necessidade de fazer e a inevitabilidade de sonhar. Será, enfim, uma busca de esclarecimento.

Ando a preparar esta viagem de um modo muito pouco prático. É que não tenho jeito nem feitio para planear e programar coisas destas. E o meu primeiro e único instinto é não me servir de nada que materialmente possa ser dispensável. Não vou levar mapas nem rota marcada. No dia em que começar a caminhar, tentarei seguir o “Caminho Português de Santiago”, entregando-me ao meu instinto e procurando um espaço visível e audível. Cheiros, também. É minha vontade passar para aqui apenas texto, registos daquilo que eu conseguir transportar para o caderno. Um caminho, uma árvore, uma pessoa. Apenas texto, passos e olhares.

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a caminho de santiago

Aos dezasseis anos plantei uma árvore, ou melhor, ajudei a plantar uma pequena árvore na Escola Secundária de Carvalhos e que já não existe porque a escola foi demolida, dando lugar a um edifício novo e a árvores novas, embora em menor número. Aos vinte e dois anos ajudei a fazer um filho, o meu primeiro filho, que é filha, e que depois teve um irmão. E, no entanto, chegado a esta fase actual, povoado já de um certo “gravitas” próprio de quem já não é um puto, ainda não escrevi um livro, porque escrever um livro é, sobretudo, não ofender o livro que tanto amamos e muitas vezes, cada vez mais vezes, achamos que podemos fazê-lo, além de possui-lo, e então vai daí escreve-se muito e tanto e arranja-se um editor e uma ou duas celebridades, ainda que mais ou menos paroquiais, e pronto, mais um livro, mais uma coisa que tem letras e uma história. Ás vezes boas histórias, outras vezes boa escrita. Mas quase sempre nunca chega a ser um livro.

Ainda não escrevi um livro, dizia eu, e nem tenho bem a noção se um dia o farei, mas já plantei uma árvore, já fiz filhos e por vezes tenho projectos pessoais. Já andei à boleia por essa Europa fora, apanhei morangos em Inglaterra, andei por terras de Espanha e até fiz uma petição com mais de trinta mil aderentes! Criei uma empresa, ganhei e perdi dinheiro e, contudo, não escrevi um livro, embora tenha ideias e projectos pessoais que tento arrumar na gaveta das possibilidades. Ir a Santiago de Compostela a pé surge, nos meus quarenta e cinco anos, como o meu próximo projecto pessoal que irei realizar, bem à frente de tantos outros que continuam na gaveta das possibilidades, alternando muitas vezes com a outra gaveta da nossa vida, a gaveta das impossibilidades. Ir a Calcutá é, por enquanto, uma improvável possibilidade mas é um projecto pessoal que eu tenho. Ir a Nova Yorque também.

“se não fores a Santiago em vida vais depois de morto”.

Ir a Santiago é como preparar bacalhau. Deve haver, suponho, mil e uma maneiras de lá ir, embora a minha ideia de ir a Santiago, não sendo original, tenha algumas características que importa esclarecer. Irei a pé, com certeza, a partir da Igreja paroquial de Perosinho, Gaia, cuja rua faz parte do Caminho Português de Santiago, levarei um passaporte que levantarei na Sé Catedral do Porto e pernoitarei nos albergues como tantos e tantos caminhantes ao longo de séculos fizeram. Não obstante este denominador comum de “ir a Santiago”, o meu projecto pessoal impõe que vá sozinho, sem cartão de crédito, multibanco ou outro tipo de forma de pagamento que não seja apenas uma meia dúzia de euros que chegue para pagar serviços realmente mínimos e indispensáveis, como é o caso da alimentação e dormida, que leve o mínimo de roupa possível, um sabão e tal, e que oiça muito, veja muito e converse sempre. E que conte tudo o que puder ser contado. Aqui, claro, neste “road2santiago” que criei com o propósito único de falar daquilo que vai ser a minha viagem de peregrino sem promessa, de católico sem oração, chamado a uma ideia de vida como todas as vidas . Até breve.